Vou construindo os meus sentimentos. Pego nas palavras e moldo-as à minha medida. Não sei se crio, não sei se recrio: vou virando do avesso aquilo que sinto.Deixem-me assim. Mentindo a mim próprio, fugindo do que percorro, sem olhar para trás. A mágoa escreve através de lágrimas o imenso tédio que tenho de mim. Não consigo viver sem ser assim, sou feliz assim. Sou estúpido assim.Para mim as palavras são o refúgio de quem não quer ter pensamentos, os meus sentimentos são as palavras que escrevo. Elas ficam aqui, agarradas a este fundo que as segura. Em mim elas não ficam, caem e voltam a nascer outras. Não me contento em sentir apenas a felicidade e a tristeza. Quero sentir o que vai de uma para outra. Não quero ser preto nem branco, mais nem menos, não quero ser o oposto nem o oposto do oposto. Quero ser o que vai de uma coisa que vai para outra, quero ser o meio. O meu meio de ser meio. Viver sem saber o que sou, ir vivendo ao sabor de mim próprio. Feliz na minha tristeza e triste na minha felicidade. Os meus sentimentos nem eu os conheço, também não os quero conhecer. Não quero saber o que sou, simplesmente quero ser, e sê-lo sempre.E a cada letra pintada com o sangue que nos corre nas veias, as palavras que escrevemos são um pouco de nós que já não nos pertence. Agora já não são nossas, agora são de quem as lê. Quem lê reescreve sobre as palavras já escritas. Volta a pensar sobre as coisas já pensadas. É a essência de criar e recriar aquilo que quem escreveu começou. Só realmente escreve quem consegue ler.Quem escreve, descreve uma ideia. Quem lê, volta a reescrevê-la. Porque mais do que as palavras são, são o que elas significam. Não faz sentido uma palavra ser apenas o que é. Ela tem que ser o que se quer que se veja nela. Uma palavra pode ser tudo, se os olhos de quem a lê puderem ver tudo. É como espelhos que só deixam ver o que se quer ver. Por vezes a noite brilha mais que o dia.Tudo gira à volta de ideias começadas e ideias por acabar. A verdade é que não se podem começar ideias nem acabá-las. Tudo vive no meio de apenas poder ser meio.Ordem das palavras só interessa para quem gosta de ouvir soar aquilo que não existe. A rima é o som que se repete, não são de todo as ideias que se fazem ouvir. A forma da perfeição não está no facto da forma poder ser supostamente perfeita.Arte de tentar unir a forma perfeita ao conteúdo que deverá ter tudo o que é suposto ter - a Poesia - talvez em vão, eu acho. É bom saber que há quem acredite que isso não é impossível. Será que uma simples frase pode conter as duas perfeições numa só? Talvez aos olhos de quem lê tudo seja possível... se acreditar...Leio bem o código de como poder ser feliz : O bater de dois corações num só corpo separado pela distância que se chama saudade. Andamos ao mesmo ritmo, ao mesmo som, o som de quem não tem nada a perder e ao ritmo de quem quer amar e ser amada.Tenho medo que um dia esta veia se corte a si própria. A imaginação deixe de existir pura e simplesmente. Tenho medo que um dia as palavras fujam de mim em mim. Tenho medo de não ter medo nenhum. Talvez quando esse dia chegar aperceber-me-ei que as palavras são a mentira de querermos sentir com algo criado exterior a nós próprios. Não existe palavras quando sorrimos nem quando choramos. As palavras apenas existem na cabeça daqueles que querem acreditar que elas existem. Enfim, acabei de escrever...
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